Desrespeito à História e à memória: os destruidores de velhos documentos se consideram pessoas úteis à sociedade

Uma das maiores frustrações dos genealogistas, e pesquisadores em geral, é a descoberta de que documentos úteis foram destruídos por pessoas que desprezam a memória e o passado.

Vândalos que quase sempre se orgulham do feito.

— Papel velho não serve para nada, quem vive do passado é museu, troço velho só serve de alimento para traças, baratas e ratos!

A ignorância é ousada e cheia de iniciativas, por se imaginar sábia…

Minhas pesquisas genealógicas esbarram a toda hora em alguma história de material por eles destruído: arquivos, fotos, documentos, escritos.

Material que, muitas vezes, chegou a ser guardado e repassado de geração para geração, de pessoa para pessoa, até que alguém decretou que não passava de papelada inútil e o transformou em cinzas ou lixo.

Destruir é muito mais rápido do que construir, e minutos de uma fogueira eliminam uma parte da História.

Mas eu também soube de casos em que o fogo serviu de instrumento para interesses nada honestos: parentes me contaram que um primo de meu pai destruiu os documentos das propriedades do avô para tentar se apossar dos bens, em detrimento dos demais postulantes à herança.

Isolou-se de tal forma da família que não descobri o resultado da trapaça, e só voltei a ter notícias dele (faleceu na década de 1980) através da internet.

Caso semelhante foi o de outro parente que pegou os documentos de um antepassado europeu para tentar se naturalizar num país europeu: não levou a ideia a cabo, morreu e a papelada sumiu.

O escritor Pedro Nava se embrenhou tão a fundo em genealogia que se tornou o pai da memorialística, gênero literário do qual virou símbolo.

Na página 100 do livro “Balão Cativo”, ele descreve a destruição dos documentos de propriedade do seu tio-avô Júlio Pinto, grande empreendedor na fase de formação de Belo Horizonte, morto em 1916:

Por sua morte e pela entrada da filha para um convento, um número colossal de outros documentos que ele guardava passou para as mãos de tia Joaninha. Esta, já velha e doente, não soube ou não pôde impedir que um seu sobrinho os inutilizasse, arrancando deles, como curiosidade para coleção – estampilhas imperiais e selos régios em relevo. Depois o autor dessa traça queimou, no terreiro, aquela papelada que atulhava as gavetas de duas cômodas enormes. Destruiu assim testamentos, inventários, contratos, codicilos, escrituras, recibos, roteiros, promissórias, diplomas, quitações, registros de hipoteca, instrumentos de procuração, convenções de doação, listas de precípuos, formais de partilha, títulos de fidalguia, foros de posse, cartas de sesmaria, patentes da briosa, certidões de batismo, casamento, morte – duzentos anos de papelada de cartório e sacristia com os fastos de uma família que confunde sua história com a da Capitania e da Província – que tudo isto flambejou, estalou no fogo, derreteu seus lacres verdes, negros, vermelhos, espalhou-se em cinza e virou fumaça num fundo de casa da Rua Pouso Alegre.

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