Chico Anysio já acusou Jô Soares de desempregar humoristas quando este se fixou em talk-show e desistiu dos programas de auditório

Acho interessantes as discussões do tipo “quem foi o melhor”.

Nunca haverá unanimidade pois conceitos e opiniões variam, mas existem preferências. São os “mais votados”, formal ou informalmente.

Talvez Chico Anysio, falecido em 24/03/2012, aos 80 anos, tenha sido o mais importante comediante brasileiro do século 20.

Além do seu trabalho, ele também deixou a imagem do espírito associativo, de sua constante defesa do mercado de trabalho para os colegas de profissão.

Em torno de 1990 Chico chegou a fazer críticas públicas a Jô Soares: alertou que a substituição do programa de auditório por um talk show (concretizada no SBT) levaria à perda definitiva de uma opção de trabalho para os humoristas.

Relembrando a história: Jô pilotava na Globo o programa “Viva o Gordo” e em 1988 transferiu-se para o SBT, onde manteve por curto tempo um de formato semelhante e criou o Jô Soares Onze e Meia, só para entrevistas. Chegou a dizer que este último era o seu sonho. Depois acabou com o primeiro (“Veja o Gordo”) e se manteve no segundo, transferido em 2000 para a TV Globo. É o único comediante fixo no talk show.

Quando o criticou, Chico Anysio acreditava que a Rede Globo não criaria um programa semelhante, pois somente ele e Jô tinham perfil adequado a liderar aquele modelo de empreitada. E certo estava.

Por outro lado, como criticar o Jô? É justo que o profissional fique algemado, impedido de mudar de estilo porque existe uma expectativa de que não haverá uma sucessão assemelhada?

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come…

O inteligente Jô não deixou o assunto render.

O tempo passa e a tudo muda; foi-se o maior de todos e Jô Soares envelhece; a nova geração experimenta novas fórmulas que pouco duram, mercê das grandes mudanças que afetam os veículos e as preferências do público.

Depois de ver o filme do Capitão América em 3D, estou enterrando os super-heróis no fundo da memória

Fui um adolescente que consumia vorazmente as revistas de histórias em quadrinhos, principalmente as dos super-heróis como o Homem Aranha, ídolo maior.

O saudosismo me levou, algumas vezes e já adulto, ao cinema ou à telinha para ver as modernas filmagens daquelas histórias fantásticas — no sentido que seria melhor abrangido pelo neologismo fantásicas.

O Capitão América não estava na minha lista de preferidos da adolescência: o excessivo, exacerbado nacionalismo embutido no personagem me deixava confuso.

Nem percebia que a própria roupa do personagem representava a bandeira dos Estados Unidos.

No início deste setembro, deste 2011, resolvi fazer mais uma concessão ao saudosismo assistindo à versão cinematográfica do Capitão América o que, ademais, me daria a oportunidade de assistir a um filme em terceira dimensão, algo que só fizera umas três décadas antes.

A tecnologia do 3D é interessante, mas o resultado foi insatisfatório: aqueles óculos ridículos e diminutos, que exigem constante reposição da cabeça e do ângulo de visão, atrapalham e reduzem o envolvimento com a história e as imagens.

Mas a decepção maior cai na conta do dinamismo exagerado das cenas, da movimentação eletrizante dos personagens, da velocidade de tudo e de todos; não dá tempo para acompanhar o desenrolar do filme.

Ao sair do cinema, a sensação que tive foi de um vazio, de um tempo mal gasto, mal aproveitado, que nada deixou de útil.

Um evento que desapareceu da memória, pois pouco me lembro das cenas do filme; foi como se tivesse dormido longe do conforto da cama por quase duas horas.

Antes de ver o Capitão América eu estava pensando na possibilidade de ver Thor e Lanterna Verde, mas acabo de tomar uma decisão: estou enterrando os super-heróis norte-americanos nas profundezas da minha memória.

No cinema, o sexo é feito contra a parede ou em cima de uma mesa (e não na velha e tradicional cama)

O Programa do Jô (Soares) de 19/09/11 apresentou uma entrevista com Maurício Nunes, autor do livro “Sexo, Cinema e dois Corpos Fumegantes”.

Durante a conversa, o Jô generalizou e perguntou porque, nas cenas de sexo dos filmes, o homem não tira a roupa da mulher suavemente, porque prefere o ato de arrancar.

Também perguntou porque o sexo é feito contra a parede ou em cima de uma mesa, e não na velha e tradicional cama.

Como o foco do autor não era sociológico ou psicológico, a conversa resvalou para os exemplos, para casos e histórias.

Aproveitei a discussão para me lembrar de um exemplo bem adequado.

Em 1996, o filme O Quatrilho, de Fábio Barreto, foi indicado para a lista final de cinco candidatos ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

Assisti-o pouco antes da festa do Oscar e tinha certeza de que ele não ganharia, por culpa de uma cena de sexo sobre uma mesa através dos personagens de Glória Pires e de Alexandre Paternost (um ator que jamais conseguiu outro papel importante na carreira).

A cena era gratuita e até inadequada para o enredo, considerando as estruturas dos personagens e os costumes da época em que a história se passou; só entrou no filme para criar impacto e obter bilheteria de um público erotizado, como o é o brasileiro.

Naquela cena eles perderam a chance de ganhar o importante prêmio.

“Os novos tempos aparentemente querem trazer a eliminação do direito autoral” – defesa de João Ubaldo Ribeiro

Confesso que ainda não arrumei tempo disponível para ler Sargento Getúlio, ou O Sorriso do Lagarto, ou Viva o Povo Brasileiro, ou qualquer outro livro do escritor João Ubaldo Ribeiro.

Mas já virei um leitor regular de suas crônicas publicadas no Estadão, todo domingo, admirador de sua pena irônica e de quem escreve como se estivesse conversando agradável e inteligentemente com uma plateia.

“Vivendo de brisa” foi o título da crônica de 20/03/2011, enfocada na possibilidade de o direito autoral ser sufocado pelas novas tecnologias.

Começa falando sobre a vida de subserviência e até penúria de grandes criadores do passado, como Balzac, Dickens, Dostoievski, Mozart, Bach e Shakespeare.

Cita a evolução obtida pela criação do direito autoral, e depois lamenta a atual conjuntura, a pirataria gerada pela internet; sobre esta questão bem presente, destaco estes trechos não sequenciais:

Mas os novos tempos aparentemente querem trazer a eliminação do direito autoral, ou impor-lhe severas restrições. Há muito que meus livros, incluindo versões em áudio abomináveis, estão disponíveis em dezenas de sites da internet, sem que eu seja nem comunicado, quanto mais pago. Agora também sei que títulos meus estão sendo baixados em leitores eletrônicos, outra vez sem que nem eu nem meus editores tenhamos sido consultados.

Li uma entrevista com um desses gênios da informática em que hoje o mundo abunda, na qual ele previu não somente o inexorável fim do livro impresso como a abolição dos direitos de autor.

Não chegou ao ponto de outro, sobre cujas ideias também li não lembro onde, que recomendou que, com suas obras à disposição de graça, os escritores façam voto de pobreza como os franciscanos, ou arranjem, vendendo a alma ao demo como possam, um mecenato que os sustente.

Se me for permitido dividir sua crônica em partes, a seguinte é da ironia:

Estou pensando em reagir aproveitando minha condição de baiano e montar uns shows casadinhos. Não conheço Daniela Mercury, Ivete Sangalo ou Margareth Menezes pessoalmente, mas tenho a esperança de que, com jeito, elas aceitem encaixar um número meu em seus shows, na base do ‘ajuda teu irmão’.

Pode ser que se esteja pensando também numa forma de remunerar o escritor que não dependa de vendas. O governo faz uma seleção dos nomes qualificados para receber algum pagamento e dá a eles, por exemplo, uma bolsa romance. Mas receio que para conseguir essa bolsa, ou qualquer outro estipêndio do Estado, será necessário arrumar um pistolão. Ou entrar para um partido político que disponha de cotas da bolsa, como parte do tudo a que tem direito por aderir ao governo. Ou talvez seja melhor a realização de concursos públicos. Quem quiser ganhar alguma coisa como escritor será obrigado a fazer uma espécie de vestibular e os aprovados terão direito a uma carteirinha e a receber dois salários mínimos por mês para seu sustento, além de uma eventual bolsa romance, bolsa poema ou bolsa ensaio.

E fecha com a defesa do justo pagamento pelo trabalho cultural:

Seja o que Deus quiser, não se pode deter o progresso. Progresso este que faz um interessante revertério para o tempo em que o artista morria indigente. Ao que tudo indica, a moda está de volta e acho que vou procurar logo uma boa sarjeta e começar a treinar. Tenho, entretanto, um comentário final: tudo bem, são os novos tempos, mas os bens culturais ‘gratuitos’ não são produzidos sem custos, pois não existe produto (ou almoço) de graça. Muita gente ganha dinheiro com essa produção, em todos os seus estágios, muita gente é paga. Por que só quem não deve ser pago é o autor?

Para acesso ao inteiro teor do texto, CliqueAqui.

Morre o humorista Serginho Leite, talentoso imitador

Serginho Leite, que morreu neste mês (12/04/2011) com apenas 55 anos, era um humorista talentoso e eficiente, mas desconhecido do grande público, pois só aparecia na grande mídia em momentos esporádicos.

Fiquei fã dele há cerca de duas décadas atrás, quando fez uma imitação simultânea de Cauby Peixoto e Aguinaldo Timóteo no (tenho quase certeza!) programa Som Brasil.

Era praticamente um personagem duplo: Serginho começava imitando Timóteo enquanto caminhava pelo palco só com o seu lado direito visível para a plateia; depois invertia a posição em um movimento súbito e imitava o afetadíssimo Cauby. Leia o resto deste post »

Afinal, Geraldo Vandré está louco ou apenas recluso numa dependência militar?

Geneton Moraes Neto, um dos melhores jornalistas investigativos do país, conseguiu o raro feito de entrevistar o músico Geraldo Vandré para a emissora Globonews.

Foi em setembro deste 2010, no Hotel da Aeronáutica, onde Vandré estava hospedado. Por que teria permissão para se hospedar lá?

Parece ter obsessão pelas Forças Armadas, principalmente pela Aeronáutica, que homenageou com a música Fabiana. Logo ele, eternamente citado como vítima de tortura durante a Ditadura Militar.

Talvez nem o próprio Chico Buarque tenha representado tão bem o papel de símbolo de reação contra a revolução de 1964 quanto o compositor e cantor Geraldo Vandré. Leia o resto deste post »

Arte moderna: criatividade e maluquice no mesmo embrulho

Existe uma valorização excessiva, exagerada, da criatividade livre.

A falta de parâmetros e limites pode lançar, em vala comum, criadores tão distanciados quanto o gênio e o aventureiro louco, e todos os que estão dentro deste espectro.

A pintura moderna é um exemplo adequadíssimo: nela cabem a criação inteligente e também a experimentação aberrante, cuja lógica só o criador enxerga ou intui.

As exposições misturam os públicos, desde o esteta possuidor de base intelectual até o pseudo-intelectual em busca de respeito, destaque e projeção. Leia o resto deste post »

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