Acumulação compulsiva de cães: um problema psiquiátrico com reflexos na saúde pública (agravado pela ineficiência das autoridades)

O título que se segue já resume bem uma matéria do site UOL (propriedade do jornal Folha de São Paulo) de 18/03/13: “Incêndio mata 43 cães em Curitiba; dona era ‘acumuladora compulsiva’, diz prefeitura”.

Achei especialmente interessante a classificação psíquica da dona da casa incendiada e dos cães:

’Ela se encaixa em todos os critérios que definem um acumulador compulsivo’, afirmou Biondo, que também é professor de Medicina Veterinária da UFPR (Universidade Federal do Paraná) e fez pesquisas sobre o assunto em sua pesquisa pós-doutorado nos EUA. 

Como o distúrbio ainda é pouco conhecido no Brasil, um laudo psiquiátrico que faz parte da ação judicial atesta que a proprietária dos cães é ‘mentalmente saudável’. Nos Estados Unidos, o problema só foi incluído na classificação de doenças mentais em janeiro deste ano. 

‘Ainda não temos profissionais aptos a identificar o distúrbio nem legislação que nos permita entrar nas casas dos doentes. Mas o caso dela é típico. Ela recolhia coisas que encontrava na rua, no lixo, e levava para casa. Há meses teve água e eletricidade cortadas por falta de pagamento’, disse Biondo. Daí o uso da vela, provável causa do incêndio, para iluminar a casa. 

‘Em geral, os portadores do distúrbio são mulheres de alguma idade e solitárias. Elas fecham a casa, fogem do contato com as pessoas. Com a progressão da doença, passam a acumular também animais e jamais cogitam entregá-los à adoção’, informou.

O absurdo é a dificuldade do poder público em resolver este tipo de problema; no caso curitibano, a matéria diz que “o acúmulo de cães na casa era conhecido pela prefeitura, Ministério Público e Spac (Sociedade Protetora dos Animais de Curitiba), que movia ação judicial por maus-tratos contra a proprietária”.

Acrescenta que “Prefeitura e Spac esperavam uma decisão judicial que lhes permitiria entrar na casa e recolher os animais para a sexta-feira (15). Mas a sentença não saiu”.

A lerdeza imposta pela legislação, com uma pitada de acomodação dos órgãos executores, cria consequências para a saúde pública, afetando quem não tem culpa pela compulsão patológica da curitibana:

A situação incomodava os vizinhos. ‘O cheiro é horrível, a sujeira atraía ratos. Acho que ela tem aquela doença dos acumuladores compulsivos’, afirmou a comerciante. Os 29 cães que sobreviveram foram levados ao abrigo da Spac.

Não é um caso incomum (o incêndio foi o fator que deu a notoriedade); arrisco dizer que qualquer cidade grande tem vários exemplos, ainda que menos exagerados.

Enfrentei situação bem parecida em Belo Horizonte, há uma década: um vizinho manteve dezenas de cães em imundície, inclusive com casos positivos de leishmaniose.

Órgãos públicos receberam denúncias, mas ele não permitia a entrada de fiscais; estes aplicavam multas, que certamente nem eram pagas.

Para piorar, o acumulador compulsivo mineiro era diabético e sofreu amputação de dedo, situação incompatível com a imundície do local de sua convalescença e convivência.

Menos dramática e bem mais original foi o caso de uma ex-vizinha, que era acumuladora compulsiva de… marimbondos.

Quando reclamamos, explicou que eles eram de uma “raça mansa”.

Impressionado com o inusitado, numa tarde de agosto de 2003 coloquei um banquinho junto ao muro e tirei uma foto, mas o ângulo e a grade não ajudaram a definir bem a imagem, que não merece ser publicada no blog. Vale o meu testemunho.

Algum tempo depois ela instalou um anteparo escuro no alto do muro, provavelmente porque percebeu que algumas de minhas visitas também usavam um banquinho para admirar o inusitado. Anos depois se mudou.

Típico da “raça brava” humana: não se importa em incomodar, mas trata da reação externa de defesa como um incômodo inaceitável.

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A lista de torcedores proibidos de entrar nos estádios paulistas é puro marketing, não funciona

Pouco antes do Oscar 2013 assisti ao filme “O Lado Bom da Vida” (“Silver Linings Playbook”, no título original em inglês), considerado sério candidato ao título.

Achei bem-feitinho e agradável, mas muito água-com-açúcar; quase duas horas de um entretenimento que nada acrescenta em termos de cultura.

O personagem de Robert de Niro é um fanático torcedor de futebol americano que foi proibido de assistir aos jogos do seu clube por comportamento agressivo.

Teve uma cena em que ele acompanhou o filho e amigos até o estacionamento mas não tentou entrar no estádio, obedeceu a ordem judicial.

A situação não é nova; no Brasil é adotada, mas – descubro agora – não é obedecida.

A má notícia vem da matéria “Torcedores ignoram lista de banidos da Federação Paulista e vão aos estádios”, publicada no site UOL em 01/03/13, da qual extraio os trechos abaixo:

Ø Medida adotada pela Federação Paulista de Futebol desde 2011 para tentar vetar a presença de torcedores envolvidos em incidentes policiais em jogos de futebol, a lista de banidos nos estádios da entidade já conta com mais de 100 nomes. A ação, entretanto, se mostrou ineficaz, já que as torcidas organizadas ignoram o impedimento e seus associados seguem frequentando jogos normalmente em São Paulo, o que é admitido pela própria Federação Paulista. 

Ø “Acontece, a polícia não consegue verificar todo mundo. Ano passado até fui barrado. Foi no clássico contra o Corinthians, eu tinha sido banido, mas tentei ir. O policial me conhecia e sabia que eu estava banido, não deixou. Pra mim é um pouco difícil porque eles me conhecem, mas os outros torcedores não tem como eles saberem”, afirmou Ferreira. 

Ø A lista com os nomes dos torcedores vetados é fixada nos portões dos estádios nos dias de jogos do Campeonato Paulista. Segundo a Federação Paulista, se eles forem reconhecidos pela Policia Militar, serão barrados. “Mas não é possível o policial militar que faz a revista checar a documentação de cada torcedor que entra. Sabemos disso”, diz Marinho. 

Fatos como esse só aumentam minha decepção com a nossa sociedade.

Leis, normas, ordens judiciais necessitam transmitir medo ou respeito, e para chegar a tanto precisam da força da coerção, do poder e impacto que só a punição eficaz promove.

A lista da FPF foi um golpe de marketing de quem idealizou, conseguiu se promover e ganhou um item no currículo para bradar, mas certamente esconde o fracasso administrativo, a pouca ou nenhuma utilidade da medida.

Se não há como garantir o perfeito funcionamento de uma norma, é melhor não usá-la, melhor deixar tudo como já estava.

Para acesso ao inteiro teor da reportagem do site UOL, cliqueaqui.

TV Globo comprova que bombom de licor, remédio homeopático e antisséptico bucal podem dar positivo no teste do bafômetro

Uma dúvida que persegue os motoristas brasileiros desde que os bafômetros passaram a ser usados pela polícia: qual é a quantidade de bebida alcoólica que pode ser tomada, e quanto tempo antes de pegar no volante?

A questão aumentou de importância com a lei de 2008 que só permitia o registro de até 0,6 grama de álcool por litro de sangue no teste do bafômetro, e se agravou com a nova lei seca, que reduziu o índice para quase zero.

E ainda agravou as punições.

Os especialistas consultados não conseguem dar respostas precisas à pergunta que abriu meu texto: alegam – e com razão – que vários fatores interferem nos resultados.

O Jornal Hoje, telejornalístico dos inícios das tardes via TV Globo, apresentou em 30/01/2013 uma matéria com a finalidade de ajudar o telespectador a compreender a questão – e evitar problemas.

O texto está disponível no site g1.globo.com e não é igual ao que é falado no vídeo, mas é bem próximo; pela utilidade geral, transcrevo-o quase na íntegra (excluí o primeiro parágrafo, que era apenas uma apresentação):

Com a nova Lei Seca, se o bafômetro apontar 0,05 mg/l de álcool, o motorista paga uma multa de quase R$ 2 mil, perde a carteira por um ano e o carro ainda pode ser apreendido. Um exemplo: para um homem de 90 kg, basta uma dose de bebida destilada para atingir esse limite de 0,05 mg/l. No caso da cerveja, duas latas são suficientes. 

A mudança na lei trouxe uma dúvida: será que o bafômetro aponta se a pessoa comeu um bombom de licor ou tomou um remédio homeopático, daqueles que contem álcool? Com a ajuda da Polícia Rodoviária Federal e de voluntários, o Jornal Hoje fez o teste com os dois produtos e também com a cerveja. 

O bombom de licor acusou 0,42 mg/l. Isso significa que o motorista estaria preso em flagrante por ingerir bebida alcoólica. O remédio homeopático também daria cadeia – 0,37 mg/l. Por último, a bebida alcoólica. Uma única lata de cerveja registrou 0,48 mg/l, também ultrapassando o limite permitido. 

Entretanto, o motorista que comeu um bombom com licor, tomou remédio homeopático ou usou antisséptico bucal com álcool, por exemplo, tem o direito de refazer o teste do bafômetro. A própria polícia recomenda que ele seja feito 15 minutos depois da primeira vez. Isso porque nesse intervalo de tempo a pequena quantidade de álcool que tem nesses produtos desaparece do organismo. 

Quinze minutos depois do primeiro teste, o Jornal Hoje refez as experiências com o policial que comeu bombom de licor e com o rapaz que bebeu cerveja. No policial, a quantidade de álcool, que era de 0,42 mg/l, foi pra zero. Já no homem que bebeu cerveja, a quantidade álcool caiu de 0,48 mg/l para 0,12 mg/l – mesmo assim ele seria enquadrado na nova Lei Seca e perderia o direito de dirigir.”.

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A fiscalização exagerada aos clientes da Boate Kiss agravou a terrível tragédia de Santa Maria, RS

Entre os incontáveis fatores que contribuíram para a tragédia de Santa Maria (27/01/13, com 235 mortos até agora) está o fechamento, pelos seguranças, da única porta da boate Kiss quando as pessoas começaram a fugir do incêndio.

Segundo relatos, os funcionários estavam instruídos para impedir que qualquer pessoa saísse sem comprovar que tivesse pago o que havia consumido.

Certamente a redução do tempo destinado à evacuação elevou o número de mortes e agravou a intoxicação.

A preocupação com a comprovação do pagamento de despesas é uma situação bem brasileira, e não existe nos países com elevado índice de honestidade.

A própria boate Kiss já foi condenada (indenização) por submeter a cárcere privado cliente que estava sem a comanda na saída.

Seu formato é improvável no Primeiro Mundo: por lá, ou fazem shows em locais grandes (onde a venda de bebidas e comidas é descentralizada, dispensando fiscalização na saída coletiva) ou em recintos menores. A Kiss misturou as duas concepções, com todos os defeitos previsíveis.

O setor de jornalismo da TV Globo pesquisou a importância e o uso deste sistema de fiscalização comercial e fez uma reportagem a respeito, exibida na edição de 29/01/2013.

Transcrevo a matéria, quase na íntegra:

As equipes do Jornal Hoje visitaram 15 boates de São Paulo. Assim como a Kiss, em Santa Maria, muitas delas têm apenas uma porta que serve para a entrada e a saída dos clientes. Empresários do setor afirmam que esse formato serve para garantir o controle do pagamento dos clientes. 

A porta de entrada é, quase sempre, a da saída. A maioria das casas noturnas tem uma ou duas entradas, que ficam sempre na frente do estabelecimento. Nas baladas, os clientes entram e pegam uma comanda em um guichê ou balcão. É nesse mesmo lugar que ele paga a conta e deixa a boate. Tudo que é consumido na noite é marcado na comanda. 

Segundo alguns empresários, o pagamento feito desta forma facilita o controle dos clientes pelos donos dos estabelecimentos. Quando há apenas um lugar para a entrada e para saída, é mais fácil evitar o calote. 

Os empresários da noite contam que este modelo de negócio acaba interferindo na arquitetura das boates. Se tiver que pagar com comanda, o melhor é ter uma porta só, para o controle do consumo. Diferente, por exemplo, de teatros, cinemas e grandes casas de espetáculo, onde você paga antes. Nestes estabelecimentos há várias saídas de emergência, também chamadas de saídas de pânico. 

[...] 

Esse controle nas boates é tão rígido que, quando alguém passa mal, os seguranças costumam impedir a saída e orientam que o cliente vá ao banheiro, se recupere e pague a conta. 

A comanda não precisa ser a única forma de cobrança. Uma casa noturna em São Paulo implantou um sistema desde que foi criada há dez anos. A casa tem vários caixas e usa o sistema de fichas. O cliente compra as fichas e vai consumindo. 

O empresário Marco Antonio Tobal, sócio da casa, trabalha na noite com esse método há 40 anos. Para ele, muitos empresários acham que, com a comanda, o consumidor gasta mais porque perde o controle dos gastos.”.

Para acesso ao texto e vídeo, cliqueaqui.

Destaco na matéria a informação – que entendo verdadeira – de que os comerciantes preferem manter este perigoso formato porque acham que o cliente bêbado consome mais e perde a noção da conta que ainda vai pagar.

Mas alguém – o Poder Público – permite (por omissão, negligência, legislação precária ou até corrupção) que os empresários adotem sistemas perigosos, como foi o caso da entrada da boate Kiss, que também funcionava como saída e como porta de emergência.

A recente tragédia foi apenas mais um caso em que o interesse comercial – o dinheiro – é colocado acima dos valores humanos, mas desta vez as consequências ultrapassaram quaisquer expectativas.

A tragédia de Santa Maria foi apenas mais um exemplo da incapacidade brasileira de cuidar de questões preventivas

Entre os vários sentimentos que me atingiram após a morte coletiva, desesperadora, de duas e meia centenas de jovens em Santa Maria (RS, 27/01/13) está o da vergonha.

Vergonha por nossa sociedade ainda permitir que desastres facilmente evitáveis ainda produzam tragédias, mortes e destruições de tamanho alcance.

A mídia informou que o alvará estava vencido em julho de 2012, mas o fato é que até aquela data ele existia; portanto a administração pública entendia que colocar mais de mil jovens num galpão com uma única saída era aceitável e legal.

A boate Kiss parece um container de navio, e com um acesso externo bem mais reduzido.

E um oficial do Corpo de Bombeiros local ainda disse na tevê que o alvará poderia ter sido facilmente renovado, pois havia extintores de incêndio e as demais exigências de lei estavam atendidas.

Por que a Prefeitura e o Corpo de Bombeiros não usam algum simples programa de computador para registrar as datas de vencimento de alvarás, o que facilitaria uma imediata notificação com a proibição de funcionamento?

E criam uma estrutura capaz de fazer as vistorias em prazo hábil?

É um absurdo o uso de galpões improvisados, geralmente originários de indústrias ou empresas que quebraram – ou apenas os desativaram – anos ou décadas antes.

Eventos com centenas de participantes são sempre de risco; deveriam ser ao ar livre ou em construções projetadas exclusivamente para tal.

Soltar fogos de artificio em lugar fechado, não projetado para tal, é ilógico, irracional. Se a lei permite, é irresponsabilidade de quem a elaborou, ou de quem não corrigiu.

E a preocupação de conferir a consumação de bebidas e outros alimentos é coisa de Terceiro Mundo, de quem tem sobra de mão de obra sem qualificação para rodar as mesas e incentivar o consumo (e acrescentar na conta alguns itens não usados).

(Por conta disso, foi retardada a evacuação daqueles que tentavam fugir do pandemônio.)

No Primeiro Mundo, o que se pede em lanchonetes de eventos coletivos se paga no ato de entrega; não há empecilhos à saída do freguês.

A boate Kiss – muitos sempre souberam, mas o povo brasileiro só sabe agora – era um local de permanente risco de alguma tragédia coletiva.

E não seria surpresa se aparecerem indícios de corrupção de fiscais municipais; não é possível que a legislação seja tão frouxa, alguma etapa deve ter sido transposta irregularmente para que os promotores continuassem realizando eventos com tantos fatores de risco.

Comemora-se a quatro ventos a evolução da economia brasileira, o ufanismo às vezes se assemelha àquele artificialmente criado pelo regime militar do general Médici, mas o amadorismo e a irresponsabilidade que acompanham fatos como este são uma vergonha.

A vida humana vale pouco nesta terra.

Governador de Minas, Antônio Anastasia, reclama e explica: Lei da Transparência inunda os órgãos públicos de pedidos de informações gigantescas

Um antigo ditado popular garante que, da teoria à prática, a distância é longa.

Foi muito saudada a lei federal número 12.527/2011, de autoria da presidente Dilma Rousseff, que prevê o acesso às informações públicas para todos os cidadãos.

Mas a generalidade da determinação está produzindo distorções.

Os órgãos públicos estão recebendo solicitações em um volume impressionante, muito acima de sua capacidade de execução.

As solicitações chegam por todos os meios: fax, carta, e-mail, telefone.

E são comuns os pedidos absurdos; como exemplo aleatório, cito a remessa de cópias de milhares de comprovantes de pagamentos vários, e o solicitante ainda exigiu que fossem entregues em sua casa (pelo menos, forneceu o endereço…).

Algumas pessoas chegam ao requinte de exigir que as informações solicitadas sejam previamente organizadas, e em formato por elas designado, ainda que isso implique em uma pesquisa tão grande que, para trabalho semelhante, seja realizada por uma equipe de trabalho, e em médio prazo.

Também impressiona a insolência: muitas mensagens são secas, rudes até, determinando ao órgão público qual é a documentação a ser entregue, o local, e até o prazo exigido.

O governador de Minas Gerais, Antônio Anastasia, manifestou sua insatisfação com os exageros dos solicitantes em recente evento (17/10/12).

Começou por analisar a evolução do conceito moderno de cidadania no Brasil, e as consequências decorrentes:

O Brasil até por volta de 1988 vivia o que, me permitam uma expressão mais vulgar, um certo apagão da cidadania. Nós só tínhamos deveres, não tínhamos direitos, o cidadão estava sob a força extraordinária do Poder Público, que desconhecia qualquer tipo de direito impondo a sua vontade de modo não discricionário, mas na verdade autoritário e arbitrário, sobre a vontade da coletividade. A Constituição de 1988 veio consagrar o novo modelo que, ao longo dos anos, vem se consolidando, mas aí reside o perigo de nós passarmos de uma sociedade na qual nós só tínhamos deveres para uma sociedade em que as pessoas pensam que só têm direitos, não têm deveres. É exatamente o ponto de equilíbrio que nós devemos buscar, ponto de equilíbrio este, aliás, já encontrado nas nações mais desenvolvidas do que o Brasil.”.

E depois levantou os aspectos negativos da lei 12.527/2011:

…nós vemos uma lei que acaba de ser sancionada, a da transparência, e já observamos pessoas de má fé, lamentavelmente, apresentando uma avalanche de solicitações, a tornar inviável não só a resposta, mas o pior, a própria ação da administração. Imaginem o custo, a despesa de se montar uma estrutura imensa, só para responder a indagações que são lamentavelmente eivadas de dolo e de má fé. Então o meio termo, o equilíbrio é que deve ser procurado.”.

Ele tem a minha concordância: parece que as pessoas confundem o indivíduo com a sociedade; a exaltação da palavra “cidadão”, no singular, está supervalorizando o ideal dos direitos e diminuindo a percepção das consequências.

Concluo informando que o discurso do governador Antônio Augusto Anastasia (longo, abrangendo ainda outros temas) foi feito de improviso, como é de sua praxe, mercê de sua vasta cultura e de uma assombrosa capacidade de discursar.

Mais uma acusação injusta de crime ganha destaque na mídia (revivendo a emblemática Escola Base, de São Paulo)

O caso Escola Base (1994) foi emblemático ao mostrar a união da (má) mídia com a (má) polícia para incriminar inocentes com a finalidade de vender jornais (ou audiência) e satisfazer vaidades (este, o único ganho aparente do delegado acusador).

Rememoro o incidente com a ajuda da Wikipedia: “Escola Base foi uma escola particular do município brasileiro de São Paulo, fechada em 1994 quando seus proprietários, sócios e uma professora foram injustamente acusados de abuso sexual contra alguns alunos de quatro anos. O chamado Caso Escola Base envolve o conjunto de acontecimentos [...] tais como a cobertura considerada parcial por parte da imprensa, e as atitudes precipitadas e muito questionadas por parte do delegado responsável pelo caso”.

A comprovação da inocência dos proprietários e funcionários da Escola Base freou um pouco o ímpeto da mídia nos casos assemelhados, e ela deixou de abraçar as primeiras acusações, as primeiras suspeitas, mas o efeito sobre a polícia parece ter ocorrido em menor escala.

E esse caso cai como uma luva sobre a apuração do assassinato da universitária Bárbara Quaresma Andrade Neves, de 22 anos, em 23 de maio de 2012, em tentativa de roubo de carro no Bairro Cidade Nova, Região Nordeste de Belo Horizonte.

A primeira reação da polícia foi negar a possibilidade de latrocínio e procurar culpados na própria família da vítima, como índica o título de matéria publicada no jornal Estado de Minas, três dias depois: “Perdida, polícia atira para todos os lados para desvendar assassinato de universitária”.

Já no primeiro parágrafo da notícia, informa: “Sem conseguir pistas sobre os assassinos da universitária Bárbara Quaresma Andrade Neves [...] a Polícia Civil decidiu se dedicar a investigar as vidas da vítima e de seus parentes. A justificativa é encontrar um motivo que ajude a esclarecer o crime. O chefe do Departamento de Investigações (DI), delegado Wagner Pinto de Souza, disse que pretende primeiro conhecer a trajetória da estudante. ‘Vamos ouvir todas as pessoas ligadas à vítima e buscar um provável motivo. Primeiro, saber o porquê. Depois, quem cometeu o crime. Pode ser um motivo social, político ou algo ligado à criminalidade’, argumentou.”.

Na verdade, ele estava assumindo o caso após a divulgação das insensatas suspeitas de outro delegado, a ele subordinado: “O policial [Wagner Pinto], porém, decidiu adotar tom mais cauteloso que o de seu colega, o coordenador de Operações Especiais do Detran, Ramon Sandoli, que ainda no início das investigações praticamente descartou a possibilidade de roubo como razão do crime.”.

O primeiro alvo da polícia é explicitado na mesma reportagem, em entrevista com o pai de Bárbara Quaresma: “’É muito triste, chega a ser uma estupidez, o primeiro delegado divulgar informações quase improváveis sobre o namorado da minha filha, de que ele já tem passagem pela polícia por uso de drogas’, desabafou o economista.”, acrescentando que “o economista também defende o namorado de Bárbara, a quem se refere como um filho e uma pessoa acima de qualquer suspeita. ‘Há sete anos ele foi apanhado numa festinha de adolescentes portando droga. Houve uma ocorrência policial em cima disso, mas o caso nem resultou em processo. Isso (a postura da polícia) dá um desgosto muito grande para quem já enfrenta uma dor dessas’, disse Gustavo.”.

Apenas uma semana depois do crime recebi um e-mail que apresentava um texto do pai de Bárbara, com duras críticas à mídia: “Convivi com um tipo de imprensa indiferente à realidade e honestidade dos fatos, com interesse exclusivamente sensacionalista – criar notícias para aumentar audiência em lugar de levar a verdade ao cidadão.

e a polícia: “Vi um profissional da polícia, ocupante de um cargo estratégico, concursado, com bom salário e boa instrução; pago para defender e zelar pela ordem pública, criando factoides, contribuindo para a desordem e fazendo declarações levianas. Acusou um rapaz, inocente, de ‘ter passagem pela polícia por motivos de droga’. Difamou o nome de um inocente, e a autoridade que lhe foi outorgada, e determinou esta verdade que a imprensa, claro, explorou para aumentar sua audiência, suas ‘vendas’.”.

Não me pareceu que o alvo tenha sido o citado jornal Estado de Minas, não identifiquei o dono da carapuça; acompanhei o caso com interesse, mas os veículos que receberam a minha atenção foram cuidadosos em informar que a acusação partiu do delegado.

Meses depois a polícia veio a público para informar que o crime foi efetivamente um latrocínio (roubo associado a morte) e que os bandidos foram identificados e presos.

O assunto voltou à mídia no início de 2013, e transcrevo matéria de 07/01/2013 do mesmo Estado de Minas: “Os assassinos da universitária Bárbara Quaresma Andrade Neves, de 22 anos, morta na noite de 23 de maio de 2012, em uma tentativa de assalto no Bairro Cidade Nova, Região Nordeste de Belo Horizonte, foram condenados pela Justiça. No fim do ano passado, Thiago Henrique Fernandes dos Santos, de 21, o ‘Terror'; Wagner Henrique Soares da Conceição, de 20, o ‘Waguinho'; foram sentenciados em 27 e 23 anos de prisão em regime fechado, respectivamente. A 11ª Vara Criminal de Belo Horizonte fixou pena por crime de latrocínio.”.

A Justiça foi até rápida.

E sigo torcendo para que este caso tenha efeito educativo.

Para acesso à matéria do Estado de Minas de 07/01/2013 (com links para textos anteriores), cliqueaqui.

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