Os legisladores se ausentam do plenários porque muitos projetos são irrelevantes

Em 1989, recém-promulgada a Constituição Brasileira que ainda está em vigor (embora largamente emendada), algum órgão da mídia decidiu conferir a frequência dos deputados federais às sessões plenárias, e depois soltou a lista dos gazeteiros.

Dois deles saíram crucificados: o mineiro Mário Bouchardet e o paulista Felipe Cheidde, ambos cassados por excesso de faltas.

Até hoje o assunto retorna às pautas midiáticas, mas os legisladores brasileiros (incluindo os estaduais e municipais) aprenderam a lição e comparecem com alguma frequência, ainda que só para registrar presença.

Sempre achei simplista o critério de presença em sessão como medidor do trabalho político: acompanhar eventos em suas bases, receber representantes de associações e elaborar projetos são algumas das muitas atividades importantes da carreira.

E as pautas de sessões são geralmente irrelevantes, com raros itens de real importância.

A repórter Larissa Carvalho, da TV Globo de Belo Horizonte, fez uma reportagem sobre os projetos irrelevantes na câmara municipal da capital, transmitida pelos telejornalísticos locais em 08/02/2012 com o título “Câmara de BH prevê gastos de mais de R$ 150 mi para 2012”.

Dois vereadores se saíram mal, viraram exemplos de autores de projetos irrelevantes.

Paulinho Motorista já havia desistido da criação do “dia da comida de preto” e tentou sair do ridículo culpando subordinados: “na verdade, esse projeto foi colocado em pauta por uma assessoria minha, que não trabalha comigo mais”.

Retrucou a repórter: “Não é sempre vocês que elaboram um projeto, a assessoria às vezes elabora e apresenta?”. Ele respondeu fingindo que aquilo não passava de um estudo técnico, o que certamente é diferente de um projeto de lei municipal.

O exemplo número dois foi o vereador Pablo César de Souza, o Pablito, que propôs a construção de estações para consertar bicicletas nas ciclovias e também a instalação de neutralizadores de mau-cheiro nos caminhões de lixo.

Mais realista – e ao encontro de minha posição – foi a fala da vereadora Neusinha Santos que, perguntada sobre a presença em sessões, disse na lata: “se o assunto for interessante eu fico, mas se for um assunto banal, que não interessa à cidade, eu realmente não perco meu tempo”.

Quanto ao valor de R$ 150 milhões, alguém cochilou pois a repórter fala em 170 no final da matéria.

Para acesso ao vídeo (inacessível pelos sistemas de busca do site), cliqueaqui.

Uma técnica jornalística de credibilidade duvidosa: relatar os fatos como se os houvesse presenciado

O jornal O Estado de São Paulo há décadas é classificado como conservador.

No plano jornalístico, ser conservador quer dizer: segue as técnicas e regras consagradas, prescritas pelos principais teóricos e pelos manuais.

Conservador que se preze só adota inovações quando elas são de uso corrente, deixam de ser novidade.

E, de fato, esta é a base editorial do Estadão.

Tenho observado uma curiosa exceção na editoria de política, e sempre em matérias assinadas pela repórter Vera Rosa (a quem não conheço, de quem nada sei).

Ela tem o hábito de contar, em detalhes, acontecimentos que certamente não presenciou, pois narra fatos e diálogos ocorridos reservadamente.

Mas não cita a fonte da informação, narra como se fosse uma escritora do tipo que os professores de linguística chamariam de onisciente.

Um claro exemplo é a matéria “Broncas em público, rotina do Planalto”, publicada na edição de 29/01/2012, narrando duras atitudes da presidente Dilma Rousseff com os ministros.

Destaco os trechos abaixo (não sequenciais), bem representativos do estilo:

“”Seu” Fernando levou bronca até no último dia de trabalho. Na segunda-feira, véspera de desocupar o gabinete em que deu expediente por quase sete anos, ele ficou sabendo que a chefe tinha um ressentimento guardado na geladeira. “Não pense que eu esqueci que o senhor ia direto falar com Lula, viu seu Fernando?”, disse a presidente Dilma Rousseff ao pré-candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad. 

[...] 

“Quando a Gleisi ligar para vocês, sou eu que estou ligando. Não adianta vocês tentarem mandar algum projeto direto para mim, sem crivo técnico, porque vou devolver”, avisou. 

[...] 

O recado era para Miriam Belchior, ministra do Planejamento, que vira e mexe é chamada às falas por causa da lentidão do PAC. 

[...] 

Para se precaver, [o ministro Guido Mantega, da Fazenda] envia todo dia para Dilma, por e-mail criptografado, dois boletins com informações sobre o cenário econômico no Brasil e no mundo. 

[...] 

“Você é muito conservador” ou “Se não sabe responder isso, deveria deixar de ser ministro” são expressões usadas com frequência pela presidente. Ela faz críticas duras e fala tudo “na lata”, sem rodeios. 

Para conferir dados e cobrar explicações, Dilma tem mania de pedir ligações urgentes para ministérios, durante as reuniões. “A presidente acha que quem entende do assunto tratado naquela hora nunca está na frente dela”, diz um auxiliar, em tom de ironia.”.

Se a repórter não implantou um chip (ou um microfone) debaixo da pele de Dona Dilma, fica difícil acreditar que tudo isso realmente aconteceu…

Para acesso ao inteiro teor do artigo, cliqueaqui.

O caso de um comerciante que começou enviando spams criativos, mas depois se tornou um chato, como os outros

A publicidade é a alma do negócio, e a criatividade é a alma da publicidade.

Desviando do caminho das metáforas religiosas, a criatividade é a única chance de sucesso para os spams, as propagandas que os internautas deletam sem abrir, assustados com as histórias sobre os roubos de senhas cometidos por hackers e seus cavalos de Troia.

Mas recebi uma mensagem inteligente, capaz de provocar a atenção do internauta e superar o risco de clicar (mesmo temendo um vírus virtual).

Praticamente uma campanha publicitária: primeiro, veio um e-mail tendo como remetente um singelo e comum prenome feminino (no caso, Larissa). E o assunto: “Essa você tem que saber”.

Apareceu uma mensagem de texto de aparente utilidade pública, sob o titulinho “Cinco informações úteis não divulgadas! Principalmente a QUARTA”.

As três primeiras se referem a cartório eletrônico, auxílio à lista telefônica e documentos roubados; a quarta é de amplo interesse, o direito de o motorista transformar a multa de trânsito em advertência.

A quinta e última foge bastante do tema: dá o link para uma suposta coluna do jornal O Globo sobre uma receita de emagrecimento.

Larissa encerra conclamando o leitor a divulgar a mensagem para os amigos, para “acabar com a indústria da multa”.

Desconfiei da presença discreta, quase disfarçada, do link de uma receita alimentar lançado logo abaixo do tópico mais atraente, e verifiquei qual era o e-mail real da Larissa: depois do arroba aparecia “receita dos famosos”, que seria também o nome da tal coluna.

Confirmado: o serviço de utilidade pública não passava de um despiste para levar o leitor, relaxado, à receita de emagrecimento.

Em ritmo de pesquisa cliquei no link, não sem antes conferir se tinha alguma extensão suspeita (geralmente é o .ru, da Rússia, ou outro país do Leste Europeu).

O site é de um vendedor de produto fitoterápico (à base de ervas); tem alguns logotipos de emissoras de tevê que conduzem, não para a Globo ou a Record, mas para a página de venda.

E não há referência à tal coluna de O Globo.

Contabilizando: usou vários artifícios publicitários mentirosos, típica propaganda enganosa.

Nos dias seguintes recebi outras mensagens idênticas, mas usando outros nomes femininos e sempre com a receitadosfamosos após o arroba. Carlinha foi o mais recente.

Com a repetição, a criatividade desaparece, torna-se inútil; o comerciante usa a troca de nomes para dificultar a localização pelos programas anti-spam, mas irrita o leitor e afugenta o freguês.

Concluo que, ainda assim, a primeira fase da campanha foi planejada com inteligência, mas depois prevaleceu a ambição. E a ética nunca compareceu.

Técnico de futebol, um salário sempre alto, mas com uma instabilidade profissional inacreditável (II)

O ex-jogador Falcão anunciou, em abril de 2011, que estava deixando o ambicionado cargo de comentarista de futebol da Rede Globo para voltar ao seu ramo de origem: assinou um contrato para ser treinador do Internacional de Porto Alegre.

Paulo Roberto Falcão era sinônimo de sucesso e de integração com o clube e com a torcida: foi seu melhor jogador das últimas décadas, famoso até na Europa, e chegou a ser técnico da seleção brasileira.

A mídia saudou o anúncio como uma possibilidade de realização de um trabalho idealista (e incomum) numa atividade conhecida pela falta de planejamento e pelas demissões sumárias; chegou a acreditar que Falcão estava sendo contratado para trabalhar a médio ou longo prazo, sob proteção e confiança dos dirigentes.

Mas o sistema não admite exceções: foi demitido três meses depois, após uma derrota de 3 a zero para o São Paulo. A curta memória esportiva esqueceu que, naquele curto espaço de tempo ele havia conquistado o título de campeão gaúcho.

Ao contrário da ampla maioria dos companheiros de profissão não saiu calado e reclamou dos diretores do clube; talvez por isso tenha terminado o ano desempregado.

Não devia desgostar de trabalhar na televisão, como sugere o longo tempo que lá esteve; ainda assim anunciou que pretende seguir na carreira de treinador.

A demissão dos técnicos a cada pressão maior da torcida é tão rotineira que eles, normalmente pessoas de personalidade forte, reagem tranquilos, sabedores de que o sistema é ainda mais forte que seu temperamento.

O técnico Givanildo, por exemplo, virou um freguês constante de três clubes: Sport Club Recife (inacreditáveis seis vezes), Santa Cruz de Recife (quatro vezes) e América mineiro (três vezes). Basta conferir na Wikipedia, não é chute.

A efemeridade dos técnicos é tão natural e predominante que motivou a ira do comentarista Antero Greco contra aqueles que anunciam projetos reformuladores quando iniciam carreira em um novo clube. Assim ele abriu a sua coluna de 04/09/2011 n’O Estado de São Paulo:

Tem muito lero-lero no futebol. Parece que, sem uma conversa mole, ele perde a essência. A maior é quando chega técnico novo e se fala em projeto, tentativa de tornar solene ato corriqueiro de troca de comando. Dá urticária ouvir esse papo furado, que não passa de teatro mambembe, pois nenhum dos personagens acredita no que se diz. Com exceções, e bota exceção nisso!, a maioria dos ‘professores’ estaciona um tempo no clube e leva um pé nos fundilhos tão logo acumule fileira de maus resultados. É convidado a cantar em outra freguesia, onde invariavelmente será apresentado como ‘o cara’, até cair ali adiante. E a roda-viva segue a girar indefinidamente.

Citou, com uma criatividade que merece a transcrição, a tripla demissão daquela semana na Série A, a principal do futebol brasileiro:

O Atlético-PR perdeu Renato Gaúcho, o Cruzeiro mandou Joel Santana levantar o Fundo de Garantia e o Bahia disse ‘obrigado por tudo, passar bem’ para René Simões.

Para acesso ao artigo, CliqueAqui.

Técnico de futebol, um salário sempre alto, mas com uma instabilidade profissional inacreditável

Haverá, no Brasil, algum emprego tão radicalmente contraditório quanto o de técnico de futebol?

Tão bem remunerado e também tão instável?

Ainda em novembro de 2011 Caio Júnior foi o 20º técnico a ser demitido no campeonato brasileiro. E a mídia ainda destacou que em 2010 foi pior: 22.

Poucas atividades representam tão bem a velha dificuldade brasileira de fazer projetos a médio ou longo prazo, pois chegar à terceira temporada (anual) em times das duas primeiras divisões é uma exceção — tão excepcional! — que vira o centro da notícia.

Distorção inimaginável em culturas mais bem sedimentadas; para japoneses, símbolos da estabilidade profissional e, portanto, exemplo ideal para comparações, parece o exotismo do exotismo.

O real motor do sistema é a paixão popular: não pode acelerar demais nem reduzir a ponto de deixar de gerar lucros.

E o técnico é o amortecedor, é o indicado para assumir a culpa do fracasso, é o bode expiatório.

Em civilizações menos emotivas e mais racionais o papel é de quem o contrata, o escolhe: os dirigentes esportivos…

…que, no Brasil, não aceitam a perda do poder, e usam todas as estratégias para transferir a culpa para o time (técnico e jogadores).

Alguns jogadores também são culpabilizados e sacrificados em momentos de fracasso e pressão dos torcedores, mas é o treinador quem geralmente faz este papel.

A passionalização é tão grande que são comuns as pressões até sobre os técnicos dos times que estão liderando torneios, que deveriam estar sendo aplaudidos.

Tite, o técnico do Corinthians em 2011 (campeonato brasileiro) teve a “cabeça” pedida após alguns resultados indesejáveis — mesmo quando estava na disputa da liderança. Foi mantido e acabou campeão.

Qualquer profissão tem as suas características próprias, seu ambiente específico; é um sistema.

E o sistema da profissão de técnico de futebol brasileiro é conhecido: poucas possibilidades de se fazer um trabalho a médio ou longo prazo, demissão quase sempre com menos de um ano de atividade. Sempre sob críticas ferozes da mídia, dos torcedores e dos grupos de oposição na política interna dos clubes.

Mas com salário altíssimo, única opção para atrair profissionais qualificados, previamente conhecedores de que só o receberão por pouco tempo.

Numa atividade com tamanho índice de passionalização as crises são inevitáveis, tornam-se rotina.

O sistema criou um protocolo perfeito para administrar crises e interesses: o técnico é contratado por altíssimo salário, depois é demitido ao primeiro sinal de crise e quase sempre sai sem reclamar dos dirigentes… mas com o bolso recheado.

Especialista propõe uma atualização da Lei de Responsabilidade Fiscal

Um dos atos mais festejados e elogiados do governo Fernando Henrique Cardoso é a LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal, oficialmente Lei Complementar nº 101), que entrou em vigor no ano 2000.

Analistas atribuem o seu sucesso à fartura de punições: seus artigos preveem penas efetivas e diferenciadas para uma série de irregularidades realizadas com dinheiro público.

Colunista de economia d’O Estado de São Paulo, Suely Caldas conta a história, a gênese da LRF:

Em 1998, quando pensou em criar uma lei para controlar gastos e punir abusos na gestão pública, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chamou dois tarimbados funcionários de carreira, velhos conhecedores das malandragens com o uso político do dinheiro público. Dois anos depois os economistas Martus Tavares e José Roberto Afonso deram vida à Lei de Responsabilidade Fiscal – uma bem-sucedida legislação de ação preventiva e focada em coibir endividamentos excessivos e desequilíbrios fiscais decorrentes de gastanças irresponsáveis de presidentes, governadores e prefeitos, quase sempre em favor de seus partidos políticos, campanhas eleitorais e amigos leais. Martus e Afonso mapearam todos os vícios e velhacarias políticas, as brechas que levavam o dinheiro para o ralo – e os puseram na lei.”.

Mas a criatividade brasileira não dá tréguas…

Na sequência, a especialista cita três novas formas de malandragens que se destacaram após a elaboração da LRF: convênios com ONGs, tráfico de influência e distribuição heterogênea de verbas públicas.

Sobre a primeira, escreveu: “Convênios com ONGs de fachada, criadas para receber dinheiro público, têm sido a malandragem mais comum, depois que a Lei Fiscal entrou em vigor. O ex-governador Anthony Garotinho deu a partida e canalizou dinheiro da população fluminense para ONGs amigas. Atrás dele vieram outros. Os ministros do ex-presidente Lula descobriram o filão e foram em frente.”.

E sobre a má distribuição de verbas públicas: “O último [ministro acusado de irregularidades] concentrou em seu Estado, Pernambuco, 90% das verbas de prevenção de desastres naturais e deixou sem tostão furado Estados como Rio de Janeiro e Minas Gerais, cruelmente castigados pelas enchentes em 2011 e neste início de 2012.”.

Encerra pregando a edição de uma nova versão da LRF para tirar o governo Dilma Rousseff das notícias que parecem mais policiais do que políticas:

Se verdadeira é a intenção da presidente de dar um basta à corrupção e seguir seu mandato construindo, o caminho que realmente funciona é criar uma segunda e atualizada versão da Lei Fiscal, de efeito preventivo e capaz de barrar o malfeito na origem. A corrupção espalha na população descrença nos governantes e desesperança em relação ao futuro. O País precisa de leis que o protejam e ajudem a recuperar a esperança.”.

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Berlusconi, um Primeiro-Ministro tarado e venerado pelos italianos inconsequentes

Líderes políticos exóticos são comuns nos países do chamado Terceiro Mundo, mas exceção em países evoluídos.

A moderna Itália fez sua concessão ao exotismo através de Silvio Berlusconi, que encerrou (por renúncia) seu terceiro mandato não consecutivo de Primeiro Ministro em 12 de novembro de 2011.

Protagonizou escândalos sexuais, gafes de etiqueta e comentários preconceituosos, mas ficou firme no poder até que a Itália começou a sofrer reflexos da crise econômica europeia.

Teve críticos duríssimos, como o filósofo italiano Paolo Flores d’Arcais (ex-professor da Universidade de Roma La Sapienza e hoje diretor da revista MicroMega), entrevistado pelo repórter Christian Carvalho Cruz no caderno Aliás, de O Estado de São Paulo, edição de 20/02/2011.

O ataque mais contundente apareceu na resposta à seguinte pergunta: “Pesquisas mostram Berlusconi com 30% de aprovação. Quem são esses 30%?“.

E Paolo d’Arcais atirou forte, pesado: “Os mafiosos, os corruptos, os sonegadores de impostos, os racistas, os amigos dos mafiosos, os amigos dos corruptos e os amigos dos sonegadores de impostos. E ainda muitos outros que se condicionam pelo controle quase totalitário que Berlusconi exerce na TV. Noventa por cento dos italianos não leem jornal. Portanto, nem sequer sabem das coisas que estamos discutindo aqui. Sabem apenas que “Berlusconi é perseguido porque gosta de mulheres”. É essa Itália que elegeu Berlusconi mais de uma vez. E com ajuda de uma centro-esquerda que tem os dirigentes mais estúpidos que já vimos: culturalmente submissos, politicamente tímidos e até corruptos, embora em proporção infinitamente menor do que os políticos berlusconianos.

O entrevistado fez uma terrível lista dos problemas que afetavam a Itália naquele início de 2011: “a crise econômica, os desembarques dos clandestinos tunisianos na costa, o gigantesco desemprego dos jovens, o aumento da desigualdade, o colapso da escola pública e da pesquisa científica, a força crescente da máfia, a ruína do patrimônio artístico e ambiental. Nosso setor industrial mostra sinais graves de crise. Aquela que há um século é a mais importante empresa italiana, a Fiat, está se tornando filial da Chrysler”.

Extraio, ainda, uma análise sobre a influência da Igreja Católica:

OESP – Qual o peso do catolicismo na vida dos italianos? Os ventos conservadores que ajudaram a eleger Berlusconi eram ecos vindos do Vaticano de Bento XVI?

Paolo d’Arcais — A Igreja tem pouco peso para os italianos hoje. Nem os católicos praticantes seguem os ditames do papa, nem na política nem na moral sexual. Mas a Igreja tem um enorme poder no establishment político, financeiro, cultural, econômico, escolar e, por sua vez, ajuda a parte mais atrasada desse establishment. O papa fez alusões genéricas e quase imperceptíveis em relação a Berlusconi. Não o criticou. A Igreja continua a apoiá-lo, porque em troca obtém as leis que lhe vêm a calhar. Afinal, de cada 1.000 que os italianos pagam em impostos, 8 vão para as religiões – na prática, quase tudo para a Igreja. Bispos nomeiam os professores de religião nas escolas públicas. Mesmo as atividades econômicas indiretamente ligadas à Igreja gozam de grandes isenções fiscais, grande parte do sistema hospitalar é controlada pelo poder clerical, também fortíssimo no sistema bancário.

Para acesso ao inteiro teor da entrevista, cliqueaqui.

E abaixo estampo uma foto que correu mundo: Berlusconi aparentemente maravilhado com o corpo da nadadora Federica Pellegrini, medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim (2008).

Um especialista em fotografias certamente dirá que uma imagem bidimensional não permite a certeza de que Berlusconi estivesse realmente olhando para a moça e não para algum foco próximo mas, com o passado dele, quem acredita?

Ecologista Jared Diamond afirma que Brasil dá mau exemplo na preservação de suas florestas tropicais

O biogeógrafo americano Jared Diamond talvez seja o mais conhecido ecologista do planeta, e um grande apologista dos perigos da falta de preservação dos recursos naturais.

Em longa entrevista concedida ao caderno Aliás, do jornal O Estado de São Paulo, edição de 22/01/2011, o jornalista levantou a seguinte questão: “Alguns cientistas afirmam que não se pode dizer ao certo que o aquecimento global seja culpa da ação do homem; pode ser parte de um ciclo natural da Terra.”.

Diamond respondeu: “O argumento de que as mudanças climáticas que estamos presenciando hoje sejam apenas naturais é simplesmente ridículo. Tanto como aquele que nega a evolução das espécies. As evidências de que tais mudanças se devem a causas humanas são irrefutáveis. Os anos mais quentes registrados em centenas de anos se concentram nos últimos cinco que passaram. O planeta já enfrentou flutuações de temperatura no passado, mas nunca nos padrões registrados hoje. Não conheço um único cientista respeitável que afirme que as atuais mudanças de clima não se devam à ação humana.”.

E lembrou que a catástrofe – ele usa mais a expressão colapso – pode ser evitada: “Se ocorrer, será porque nós, humanos, o causamos. Não há segredo sobre quais são os problemas: a queima exagerada de combustíveis fósseis, a superexploração dos pesqueiros no mundo, a destruição das florestas, a exploração demasiada das reservas de água e o despejo de produtos tóxicos. Sabemos como proceder para resolver essas coisas. O que falta é vontade política.”.

Foi discreto e cavalheiresco quanto à participação do Brasil na degradação do meio ambiente; no resumo que abriu a reportagem, os editores da matéria relatam que ele “avalia que o Brasil dos combustíveis verdes tem sido ‘uma inspiração para o mundo’, mas também um ‘mau exemplo’ na preservação de suas florestas tropicais”.

Para acessar o inteiro teor da entrevista, cliqueaqui.

Daniel Piza analisa a contradição entre o antiamericanismo e a influência norte-americana no Brasil

Não sei quando começou o antiamericanismo, esse sentimento de antipatia aos Estados Unidos da América que é forte no Brasil e parece existir em todo o planeta.

Mas o percebo desde que ingressei no mundo dos adultos.

E nunca o digeri bem quando surgiu nalguma comparação com o Brasil: nossos problemas certamente são diferentes, e ainda maiores que os deles.

Em bate-papo já tive até a oportunidade de usar uma lógica bem simplista, rasteira mesmo: argumentei que os EUA estão certamente abaixo de algumas nações – como os países escandinavos – em qualidade global de vida, mas o Brasil não pode almejar chegar ao estágio ideal sem passar pelo intermediário.

Precisa ser um Estados Unidos antes de ser uma Suécia.

Na última semana de 2011 eu preparei – para posterior publicação no meu blog – um texto do jornalista Daniel Piza sobre o assunto; no penúltimo dia do ano o autor morreu repentina e precocemente, aos 41 anos.

Não apenas pela pertinência, como também por homenagem, transcrevo abaixo o artigo intitulado “Declínio americano?”, publicado n’O Estado de São Paulo de 28/08/2011 (excluí tão somente o segundo parágrafo para reduzir o post e por entender que fugiu um pouco do tema básico).

A crise econômica dos EUA, afundados em dívidas que há muito se sabe que um dia eles teriam dificuldades para rolar, faz muita gente apontar um declínio breve do ‘império’ e, em consequência, a tentar adivinhar de quem será este século 21, já que o anterior foi americano. Muitos apontam a China – ou a Ásia em geral – e alguns como o presidente Lula, cuja bravata patriótica soava e soa tão parecida com a do regime militar, chegaram a dizer que seria ‘o século brasileiro’. No entanto, observando culturas como a brasileira, me pergunto se a influência americana sequer começou a ceder. Assim como vai demorar para os EUA serem ultrapassados no PIB e no IDH por um mesmo país (a China pode ultrapassar no PIB até 2050, dizem, mas vai precisar de muito mais para fazê-lo no IDH), a força sedutora do ‘american way’ também vai se estender bastante.

[...]

No campo do consumo do chamado ‘entretenimento’, então, nem é preciso listar muitos fatos. A TV por assinatura multiplicou os seriados e programas americanos, seguidos fielmente no mundo todo; Hollywood continua a dar as cartas nas bilheterias globais, com sua usina de celebridades que povoam sites e revistas; cantoras como Beyoncé e rappers como Jay Z dominam os videoclips em TV e You Tube; filmes de HQ em cartaz como Capitão América e Lanterna Verde insinuam a velha ideologia do heroísmo que livra Nova York e outras cidades de vilões com tonalidades nazistas ou comunistas ou terroristas; e até para rirmos das manias americanas, de sua mentalidade consumista, precisamos de um americano como Woody Allen. E o que dizer do admirável mundo novo da tecnologia? Bill Gates, Steve Jobs e Mark Zuckerberg estão muito acima da manada forasteira – e que eu saiba a internet fala inglês, não chinês.

Talvez alguém argumente que a cultura americana não perdeu influência em termos de quantidade, de comportamentos massificados, mas em termos de qualidade, de modelos refinados. Por um bom tempo, bebendo na fonte europeia, a cultura americana buscou padrões cada vez mais elevados e produziu escritores como Henry James, Scott Fitzgerald, Saul Bellow (irrelevante que tenha nascido no Canadá); importou cientistas como Einstein e cineastas como Hitchcock; produziu movimentos na pintura, como o expressionismo abstrato, e na música, como o jazz, o bebop e o rock, que mudaram o mundo a fundo; também gerou pensadores, metafísicos ou pragmáticos (de Peirce a Rorty), e espalhou fundações e museus indispensáveis. Nomes e instituições já não surgem como antigamente nos EUA. Mas alguém me diga: e onde surgem?

Sim, também sonho com um mundo mais multipolar, o que significaria uma América menos hegemônica, e, sim, também me canso dessa cultura americana de arte enlatada e mente dicotômica, que com seus apelos emotivos e ‘power points’ afasta muitas pessoas de outros conteúdos e formas de pensamento e estética. Não nego que algumas coisas estejam mudando e que isso seja bom, que os tempos de colonialismo bélico possam estar passando. Mas acho desonesto ignorar a presença ainda tão forte dos produtos e atitudes dos EUA, tantas vezes imitados até por quem diz odiá-los, e confundir uma fase crítica com um fracasso estrutural. Talvez o fato de o século 21 não vir a ter um ‘dono’ seja a melhor notícia, mas, por ora, um deles ainda serão os EUA por um bom tempo. Como diria Mark Twain, os boatos sobre o declínio americano são exagerados.

Para acesso ao inteiro teor do texto, publicado no seu blog (mantido pelo jornal), cliqueaqui. Provavelmente o blog ficará permanentemente no portal do jornal já que Daniel Piza era o seu editor de cultura.

Delis Ortiz narra o caso do motorista cara de pau que criticava os políticos enquanto lesava passageiros

A jornalista Delis Ortiz, depois de duas décadas como principal repórter da TV Globo em Brasília, agora é correspondente em Buenos Aires.

Apareceu um pouco diferente, engordou um tiquinho atraindo minha curiosidade (que sempre se expande através do Google).

Está com 48 anos, duas filhas e dois netos, o que explica a mudança. O tempo é tirano.

E encontrei um texto dela que se encaixa perfeitamente num tema que me é caro: a incrível capacidade que muitos brasileiros possuem em pregar o oposto do que praticam.  Leia o resto deste post »

Luís Fernando Veríssimo, desumano, não quer saber do furúnculo da tia Elvira

O humorista Luís Fernando Veríssimo é famoso por sua timidez e discrição; talvez por isso se irrite com a moderna contaminação dos vícios sociais.

Pela sua coluna dominical d’O Estado de São Paulo se queixou do cigarro do vizinho e das conversas pelo celular, em público e voz alta.

Tão revoltado que não quer saber nada sobre o furúnculo da tia Elvira: se dói, se solta pus, nem onde está localizado (será que é ali?).

Tia Elvira que se dane…

E assim ele fechou a crônica de 28/08/2011:

Fumar em lugar fechado está sendo proibido em todo o mundo para evitar a contaminação do vizinho, que pega fumaça e seus males de segunda mão. Acho que deve-se pensar em obrigar quem tem telefone celular a também ir usá-lo na rua. O objetivo seria nos proteger da contaminação pela vida alheia. Não precisamos saber do furúnculo da tia Elvira. E agora, com os pods e pads que fazem de tudo e informam tudo, há uma nova praga. Gente que no cinema, no meio do filme, liga o troço.

Se ainda fosse para saber como está o índice Bovespa. Mas não, geralmente é para saber da tia Elvira.”.

Pedestres, ciclistas, motoqueiros e motoristas disputam território nas ruas

Um fenômeno estranho que não perde força no Brasil é a manifestação pública externa, usada com a finalidade de expor para a sociedade um problema específico de um grupo.

O estranho do fenômeno é que, no caso brasileiro, existe uma regra não escrita, mas sempre seguida: a manifestação somente será respeitada pelas autoridades se criar impacto, seja social ou midiático.

E a forma de impacto mais usada é a interrupção do tráfego de automóveis nalguma importante via pública de uma grande cidade, causando prejuízos a muitas pessoas sem vínculo com a questão.

É a mesma lógica — guardadas as proporções — dos terroristas muçulmanos que não se importam em matar outros muçulmanos nos atentados, sob o argumento de que estas vítimas estão ajudando a Causa, ainda que em troca da vida. Leia o resto deste post »

Filósofo pessimista afirma que o povo brasileiro usa o direito do abutre a se nutrir da carniça das tragédias sociais

Um dos comportamentos sociais brasileiros que mais me deprimem é o saque, realizado por grupos não organizados da população, que se apropriam de produtos que parecem não possuir um proprietário claro.

O tipo mais comum é a espoliação da carga de caminhões acidentados, antes que a polícia ou o dono da mercadoria chegue.

Se o produto é perecível, a alegação, a explicação-desculpa, é que ele se perderá mesmo; quando não é o caso, os autores diluem a culpa alegando que foi um ato coletivo, e que apenas fizeram “o que todo mundo está fazendo”.

“Não tem dono mesmo” ou “vamos pegar antes que outros peguem” são outras desculpas, os disfarces para o roubo perpetrado por ladrões não profissionais, não assumidos.

No artigo O direito do abutre, publicado no caderno Aliás, do jornal O Estado de São Paulo, edição de 22/01/2011, o sociólogo José de Souza Martins não amacia as palavras:

A rapina de cargas de veículos acidentados é outra modalidade de sebaça, multidões repentinas carregando o que podem. Não se trata de ladrões profissionais. Trata-se de algo pior: da prontidão de pessoas comuns, que nunca sairiam de casa para assaltar alguém, mas o fazem simplesmente porque a oportunidade se apresenta.”.

Outra ilegalidade comum no Brasil é o desvio de doações destinadas às vítimas das grandes tragédias, como as inundações sazonais de todo início de ano.

A desculpa inventada pelos ladrões — usada para se autoenganarem — é assemelhada: enquanto não estiver oficialmente entregue ao flagelado o produto está sem dono.

Martins ainda inclui no grupo “o saque do que restava das casas das vítimas, com gente até se oferecendo como voluntária para ajudar apenas para ter a oportunidade de saquear” e “os oportunistas que oferecem água à venda por preços multiplicados e casas para alugar pelo dobro do preço de mercado”.

E vê raízes tanto históricas quanto primitivas:

Essa prática tem entre nós raízes culturais profundas. Herdamos da Europa medieval o direito à sebaça, ao saque dos bens dos vencidos. Na história social e política brasileira temos vários episódios e ocorrências desse tipo nas chamadas lutas de famílias. O caso mais emblemático, ocorrido em Dianópolis, no norte do antigo Estado de Goiás, virou enredo de obra clássica da literatura, O Tronco, de Bernardo Élis. Também no cangaço, a sebaça se propunha como um direito do vencedor sobre o vencido.”.

E assim fecha o pessimista ensaio, motivado pelos eventos posteriores à grande tragédia de janeiro de 2011, que foi a inundação da região serrana do Rio de Janeiro:

Em outras sociedades, essas formas primitivas de direito foram banidas e superadas pelas revoluções sociais e políticas. Aqui, historicamente as coisas foram diversas. A superficialidade das mudanças sociais sempre facilitou a agregação do direito velho ao direito novo, traço profundo da nossa cultura política da conciliação. Os saques e a especulação econômica contra as vítimas sobreviventes do desastre ambiental na região serrana do Rio de Janeiro nos mostra a vitalidade entre nós do direito do abutre a se nutrir da carniça das tragédias sociais.”.

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Cavalo e cavaleiro (jóquei) em disputa pelo poder

Quem domina, o grande ou o pequeno? Parece que, neste caso, o controle está nas mãos do jóquei Vágner Borges, jovem revelação das corridas do Hipódromo da Gávea. A potranca Super Tóta, de três anos, reage contra as rédeas controladas por quem tem pouco mais do que 10% do seu peso. Mas vai ceder.

Foto de Márcio de Ávila Rodrigues (jóquei Vágner Borges, Hipódromo da Gávea)

Uma análise humanista de Daniel Piza: “Quem não tem sucesso profissional ou financeiro é tachado de perdedor, como se felicidade se medisse em salário”

Na sequência de minha pessoal homenagem ao jornalista Daniel Piza, precocemente falecido em 30/12/11, aos 41 anos, transcrevo abaixo um seu comentário sobre as pessoas que superestimam o sucesso profissional, que fazem deste o objetivo único da vida.

Um exemplo bastante claro está no uso cada vez maior, em ruas e telenovelas, de adjetivos como ‘popular’ e ‘loser’. Ou seja, uma pessoa que chama atenção dos outros por sua aparência física ou habilidade esportiva e se dá bem com a maioria das outras ganha agora esse qualificativo, como se tais atributos fossem mais importantes num ser humano do que caráter e inteligência. E quem não tem sucesso profissional ou financeiro é tachado de perdedor, como se felicidade se medisse em salário, como se status substituísse vocação; cada vez soa mais estranho que alguém opte por uma carreira mais por gosto do que por retorno. Isso sem entrar em outro adjetivo corrente, ‘workaholic’, para designar os que acham que vidas familiar e cultural são secundárias, até que se veem tomando pílulas com Coca-Cola para aguentar o estresse.

O texto foi pinçado de sua coluna, publicada n’O Estado de São Paulo de 28/08/2011, que analisa a falácia sobre o “declínio americano”.

E reflete uma lição vinda de quem sabia observar, analisar e orientar.

Seus leitores mereciam que ele tivesse mais tempo de vida para produzir e criar mais, mas tal decisão é da competência de outras esferas.

A morte precoce do jornalista e escritor Daniel Piza foi uma perda lamentável para a cultura brasileira. Um lágrima para ele

Todo domingo, sempre que possível, pego o carro e me desloco para comprar, em Belo Horizonte, o jornal O Estado de São Paulo.

A edição dominical é sempre especial, recheada de textos analíticos e crônicas.

No caderno de cultura sou leitor fiel dos textos de João Ubaldo Ribeiro, Luís Fernando Veríssimo e da coluna de Daniel Piza, que também é o editor responsável pelo setor. Era.

O primeiro dia e também primeiro domingo de 2012, foi a data do enterro de Daniel Piza.

Informa o próprio Estadão, em texto da internet:

O jornalista Daniel Piza, de 41 anos, morreu na noite desta sexta-feira, 30, após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC). Estava em Gonçalves (MG), onde passava as festas de fim de ano com a família. Chegou a ser socorrido pelo pai, que é médico, mas não resistiu. [...] Advogado, formado no Largo de São Francisco, era escritor, com 17 livros publicados, entre eles Jornalismo Cultural (2003), a biografia Machado de Assis – Um Gênio Brasileiro (2005), Aforismos sem Juízo (2008) e os contos de Noites Urbanas (2010). Traduziu títulos de autores como Herman Melville e Henry James e organizou seis outros, nas áreas de jornalismo cultural e literatura brasileira.

Uma perda lastimável para a inteligência brasileira, para um país carente de uma melhor e mais homogênea formação cultural, repleto de problemas que precisam ser melhor conhecidos e analisados.

Em sua coluna ele habitualmente usava o intertítulo “Uma lágrima” para falar de mortos recentes, principalmente na área cultural.

Blogueiros de todo o país já escolheram a mesma expressão para lamentar sua morte. Justa homenagem.

P.S.: E não consegui o jornal.

Uma análise pessimista sobre a política brasileira: “Os escândalos são inevitáveis, pois os ocupantes de cargos públicos importantes são oriundos da classe política”

Não me recordo de outra sequência de escândalos e quedas de ministros semelhante a esta que lançou holofotes e manchetes sobre o primeiro ano do governo Dilma Rousseff.

Segue a lista dos demitidos, apenas para historiar: Antônio Palocci (Casa Civil), 7 de junho; Alfredo Nascimento (Transportes), 6 de julho; Nelson Jobim (Defesa), 4 de agosto; Wagner Rossi (Agricultura), 18 de agosto; Pedro Novais (Turismo), 14 de setembro; Orlando Silva (Esportes), 26 de outubro; e Carlos Lupi (Trabalho), 4 de dezembro.

Nelson Jobim era o único que não estava envolvido em acusações de corrupção na sua área de atuação: apenas chamou a ministra Ideli Salvatti de “fraquinha”.

O mais recente já ganhou o troféu de Mais Patético: em sessão da Câmara dos Deputados, 10/11/2011, “Lupi pediu desculpas públicas por ter declarado que só sairia do ministério ‘abatido a bala’ e disse amar a presidente Dilma Rousseff. ‘Presidente Dilma, desculpe se fui agressivo, não foi minha intenção: eu te amo.’” (trecho extraído da Folha de São Paulo).

De quebra, criou outro constrangimento para Madame Rousseff: o envolvimento do partido político do coração dela, de suas origens, que é o brizolista PDT.

Uma informação para quem não leu o suficiente, ou ainda acredita na propalada coerência de raízes do Partido dos Trabalhadores: Dilma Rousseff era membro do PDT desde a fundação e só passou para o PT em 2000, após indisposição com um grupo de Porto Alegre.

Mas não há como culpar a própria presidente pelas nomeações dos ministros demitidos: a distribuição de cargos aos partidos aliados é inevitável, não há outra forma de governar este complexo Brasil.

Um amigo que trafega pela área política, conhecedor dos seus meandros, diz que os escândalos são previsíveis e inevitáveis, pois os nomeados para cargos públicos são extraídos da classe política.

E que a classe política é isso que se vê…

Se as consequências são previsíveis e inevitáveis, e se o sistema não deve ser alterado (já que as outras opções de organização social testadas no passado tiveram ainda pior desempenho), resta-nos apenas torcer pela eficiência dos órgãos fiscalizadores (inclusive a mídia) para fazer a depuração, ainda que em longo prazo.

Aprovação de aluno ruim (Escola Pagou-Passou) tem consequências danosas para a sociedade

A geração de meus avós, e até mesmo a dos meus pais, mal e mal teve acesso à universidade; aquilo era algo especial, para poucos, para os eleitos.

A grande mudança aconteceu no Regime Militar, mais especificamente sob a batuta do ministro da educação, Jarbas Passarinho (que está discreto, longe dos noticiários, certamente retraído por limitação da idade, já que completa 92 anos no próximo janeiro).

Duas leis mudaram bastante a organização do ensino no país: a Reforma Universitária (4.024/68) e a Reforma do 1º e 2º graus (5692/71).

Foram anunciadas como a reformulação total e positiva do ensino, mas nós, brasileiros, bem sabemos que a distorção é uma consequência inevitável na história da terra cabralina.

A iniciativa privada avançou sobre o novo mercado que se abriu, mas a avidez dos lucros distorceu a proposta oficial: boa parte — se não a maior parte — das escolas privadas de ensino fundamental, médio e superior têm na qualidade uma bandeira meramente retórica.

Garantem o sonhado diploma mas não a qualidade do ensino; é a chamada “Escola Pagou Passou”, ou “Escola PP”.

De consequência, desorganiza-se o mercado de trabalho, pois o grau de escolaridade deixa de ser importante para o empregador. Torna-se necessário pagar a um profissional para reavaliar o candidato ao emprego.

E, de outra consequência, ilude o estudante menos aquinhoado em capacidade intelectual, que perde tempo e dinheiro na disputa de vestibulares e concursos públicos.

Tenha uma parenta que, de posse de um diploma de segundo grau (ensino médio) fornecido por alguma escola pouco exigente, alguma PP, tentou o vestibular de medicina por vários anos consecutivos.

Na época, a divulgação dos resultados era restrita, mas um erro na totalização obrigou a Universidade Federal a publicar os detalhes, e os familiares descobriram que ela estava entre os últimos colocados.

Perdia tempo e dinheiro com uma ilusão.

Duas décadas se passaram e a injusta situação permanece, fazendo outras vítimas, como uma faxineira que gasta parte do seu salário para fazer cursos com o objetivo de se transformar em auxiliar de enfermagem.

A escola recebe o seu dinheiro e os instrutores não a alertam sobre a impossibilidade de realizar os sonhos: ela não tem capacidade para exercer tal profissão, e ponto.

Capitalismo selvagem e humanitarismo trafegam por linhas paralelas.

Pintar a tampa do vaso com xixi, um comportamento vergonhoso de brasileiros

Para o brasileiro, do sexo masculino, é motivo de comemoração sentar num vaso sanitário seco, sem os amarelados vestígios do xixi de algum antecedente.

— Que sorte! A educação passou por aqui. Ou a faxineira acabou de sair…

O que deveria ser a exceção, é a regra: mijão que respinga na banca, que não levanta o tampo, que erra a pontaria, que não se preocupa com o sucessor que vai precisar sentar ali por alguma necessidade fisiológica (que bem poderia ser a dele).

Ou que apenas quer expor o sádico prazer de prejudicar desconhecidos.

Um comportamento inexplicável; ou facilmente explicável pelas teorias das patologias do cérebro.

E pela simples e banal falta de educação, como também pelo egoísmo incontrolado.

Um comportamento bem brasileiro, bem terceiro-mundista, algo que não se vê entre os povos mais educados.

(Que, geralmente, não disponibilizam instalações sanitárias de restaurantes e lanchonetes: só freguês entra, e ainda exigem comprovação de consumo.)

Uma aberração predominantemente masculina, até porque ele não precisa se sentar no vaso toda vez que vai ao sanitário.

Mas não é incomum ouvir mulheres reclamando da limpeza dos banheiros femininos em escolas, locais de trabalho, restaurantes.

Não surpreende: brasileiras são filhas de brasileiros, que são filhos de brasileiras, que são filhas de brasileiros, que são filhos de brasileiras; e por aí seguem os traços da genética, comportamento, cultura, atavismos.

E uma interminável decepção.

Número de telefone vai passar a ter nove dígitos

No início da década de 1970 estive em Paracatu (MG) para assistir corridas de cavalos e fiquei surpreso quando dei um telefonema local e descobri que o número tinha apenas dois dígitos: uma fagulha de memória me garante que era 29, ou talvez 40.

E, também vagamente, me lembro de que precisei da intervenção de uma telefonista pública.

Na capital Belo Horizonte o número de dígitos já era, então, bem maior do naquela terra natal do meu avô, mas bem menos do que os atuais oito.

E o formato atual não vai durar muito tempo: o telejornalístico Bom Dia Brasil, TV Globo, edição de 22/12/11, anuncia que “os números de telefone vão passar a ter nove dígitos. A mudança começa em São Paulo”.

Ainda bem que decorar número de telefone não é uma necessidade: celulares, aparelhos sem fio, agendas eletrônicas e computadores dispensam o uso de espaço no disco de memória humana, que fica disponível para tarefas mais interessantes.

O antigo nome Congonhas do Campo já foi oficialmente rejeitado pela população de Congonhas (MG), mas ainda é usado por engano

Há erros que, de tão repetidos, confundem as pessoas, que o tomam pelo certo. É o caso da histórica cidade mineira de Congonhas, constantemente tratada pelo nome de Congonhas do Campo.

Apenas em 1938 a cidade foi emancipada e recebeu o nome de Congonhas do Campo, que durou apenas 10 anos: em 1948 foi oficializado o nome reduzido e definitivo. Mas a forma efêmera foi tão repetida — por engano — que muitos imaginam ser este o nome real.

Em 2003 o Brasil gastou um dinheiro inútil para realizar um plebiscito na cidade sobre o seu nome, e a rejeição ao projeto de retorno a Congonhas do Campo recebeu apoio maciço, pois 20.515 eleitores, 79,36% do total, votaram pela manutenção.

Situação ao mesmo tempo semelhante e antagônica acontece na Grande São Paulo: a cidade de São Bernardo do Campo é tão citada pelo redutivo São Bernardo que o povo brasileiro acredita ser este último o nome oficial.

Estampo, abaixo, uma foto de 1996, única visita que fiz a Congonhas (sem Campo): posei com minha saudosa mãe Genny na escadaria do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, a maior atração turístico-histórica da cidade. Pena que o fotógrafo-pai não revelou talento, pois cortou as cabeças dos profetas de Aleijadinho.

Lembranças de um jovem repórter que varava as madrugadas de sexta-feira, em Belo Horizonte, anos 70, trabalhando e comendo muito

O meu bairro de Santa Tereza está se transformando na pátria dos butecos da capital de Minas Gerais.

Com a fama e a procura, mercado aquecido, novos empreendimentos são abertos seguidamente em pontos diferentes de suas ruas, tendo a cerveja e a picanha como protagonistas e seus assemelhados como coadjuvantes bem apreciados.

Na rua Mármore, a principal, em meados deste 2011 abriu-se o Quibelanche, usando o nome de um tradicional bar/lanchonete que funcionou no centro de Belô por muitos anos.

O uso seguiu caminhos legais: o dono do atual é genro do antigo.

Fui um freguês semanal assíduo do amplo e movimentado bar do sogro, em torno de 1973 e 74, um freguês das sextas-feiras.

Naquela época eu era repórter do extinto Jornal de Minas, mas também tinha uma revista de turfe que me dava um pequeno lucro na vendagem de seus menos de 100 exemplares, e nos anúncios singelos e baratos. Leia o resto deste post »

A rede hoteleira nacional está no seu limite de vagas e de preços

Desde o início de minha juventude tenho o hábito de viajar sem fazer programações antecipadas, principalmente quanto à hospedagem: deixo a mala na rodoviária e vou ao centro da cidade escolher hotel.

Só me lembro de uma grande dificuldade: na década de 80 cheguei a São Paulo em um dia de algum evento de grande porte e, depois de bater pernas por horas, só consegui um quarto terrível no Hotel Las Vegas, no centrão.

Dormi engavetado: a cama ficava um metro abaixo do pé do armário, por sua vez preso no meio da parede. Precisei fazer uma concentração mental na hora de dormir, orientar o cérebro a ligar um dispositivo que, ao acordar, me avisasse que, caso eu levantasse sem rolar para o lado, bateria a cabeça no assoalho do armário aéreo.

Certamente era um quarto adaptado para uso de empregados pouco valorizados pela gerência, mas que servia para render dinheiro num dia de superlotação.

A luzinha de alerta para a mudança de hábito só se acendeu na mesma São Paulo, há três ou quatro anos, quando tive dificuldades em encontrar um hotel na região do Hospital das Clínicas em pleno sábado, dia de habitual excesso de vagas.

Hoje o problema é nacional: hospedagem em hotéis de cidades turísticas, como de qualquer grande cidade, só com razoável antecedência.

Na falta de uma boa e abrangente reportagem que tenha chegado ao meu conhecimento, levanto minhas próprias teses sobre o problema. Na verdade, suas causas prováveis:

a) A degradação dos centros tradicionais das grandes cidades, fechando antigos hotéis e criando vagas ociosas.

b) O crescimento da indústria do turismo.

c) O crescimento de outras indústrias: concursos públicos, congressos, faculdades particulares.

d) A política fortemente capitalista das empresas aéreas, aumentando o número de passageiros e sobrecarregando as infraestruturas dos aeroportos.

e) E o surpreendente momento econômico do país, que reflete sobre as classes média e alta elevando o número de viagens das pessoas.

No caso do mercado hoteleiro é visível uma consequência negativa: a elevação do custo para o cliente, já que excesso de procura sempre provoca aumento do preço.

E sem a correspondente melhoria do atendimento, pois cliente é o que não falta; o insatisfeito perde valor, é desprezado.

Quanto à insuficiência de vagas, o mercado hoteleiro tem como responder, a curto e médio prazo, à demanda atual, já que é uma atividade privada.

Meu medo é outro: historiadores abalizados, e economistas idem, garantem que o capitalismo é cíclico, e as crises sempre sucedem aos inevitáveis descontroles dos momentos favoráveis.

Ademais, a influência (econômica) externa sempre existiu, mas a globalização tende a aumentá-la; e o que se vê nos Estados Unidos e Europa é preocupante.

Oxalá a facilidade de encontrar hotéis não retorne do pior jeito.

Boston merece um passeio turístico

Os brasileiros só associam o turismo nos Estados Unidos a três locais: Nova York, Flórida (Miami e Orlando) e Califórnia (Los Angeles e San Francisco). Mas poucos vão para a Califórnia.

E não sabem que Boston também é uma cidade bem turística. Situada na mesma região de Nova York (nordeste) e a 346 quilômetros desta, é facilmente acessável por um trem rápido e confortável. E também é uma cidade histórica, importante na colonização inglesa e, depois, na independência.

Hoje é mais lembrada por ser o maior polo educacional do país, principalmente por causa das prestigiadas Harvard University e MIT (Massachusetts Institute of Technology).

Na bela foto que saquei em outubro/2011 e publico abaixo, os prédios modernos do centro da cidade aparecem do outro lado do rio Charles.

Identificação da sacolinha biodegradável é o ponto fraco nas leis municipais que proíbem as sacolas plásticas

Eta Brasil complicado! Nele não existem soluções, existem paliativos.

A Câmara Municipal de Belo Horizonte, por iniciativa do Executivo, criou a lei 9.529/2008, que proíbe o uso de sacolas plásticas no comércio.

Aplaudi a iniciativa — e ainda continuo a favor —, principalmente por causa da participação delas nas inundações, obstaculando a rede de esgoto.

Mas a lei criou uma exceção, e daí partem os problemas: permite a sacola compostável que, em tese, tem a propriedade de se biodegradar (desintegrar sem deixar resíduos no meio ambiente) em 180 dias, quando levada à usina de compostagem. É feita — ou deveria ser! — de amidos (milho, mandioca ou batata) ou do bagaço de cana-de-açúcar.

O problema é a impossibilidade de distinção, para o leigo e até para o técnico, entre a proibida e a permitida.

E por esta brecha os fraudadores penetram…

Percebo, agora, que faltou embasamento técnico na liberalidade: os legisladores não informaram ao público, através da mídia, que inexistem métodos baratos, fáceis e rápidos para identificar o tipo permitido.

A questão apareceu em reportagem publicada no jornal Super Notícia (grupo O Tempo) de 25/11/2011: “Embora todas tragam a inscrição obrigatória de atendimento à NBR 15448-2:2008, como determinado pelo decreto que proibiu os outros plásticos na capital, boa parte das embalagens não é fabricada apenas de material compostável. ‘Tem mistura de outros polímeros’, afirma o diretor da Res Brasil, empresa que trabalha com todos os tipos de plástico, Eduardo Van Roost.

E a Prefeitura confirma a fragilidade administrativa: “A tese do especialista é confirmada pela Prefeitura de Belo Horizonte. O chefe de gabinete da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Saulo Ataíde, diz que o órgão recebeu denúncias e que a Associação Brasileira de Polímeros Biodegradáveis e Compostáveis (Abicom) confirma os indícios de fraude. Porém, nenhuma autuação foi feita ainda porque não há comprovação técnica da adulteração.”.

E no dia 19 de dezembro o jornal Estado de Minas entrou na questão, com outra fonte: a Universidade Federal de Minas Gerais.

Informou que: “Estudo feito pelo Laboratório de Ciência e Tecnologia de Polímeros do Departamento de Engenharia Química da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) indica que sacolas testadas na capital apresentam o mesmo percentual de polietileno – polímero usado na fabricação de embalagens de plástico – das convencionais.”.

Pior: “A prefeitura admite que os fiscais só observam as inscrições nas embalagens e não têm capacidade técnica para identificar a qualidade das sacolas plásticas.”.

E fecho o texto com uma perguntinha que não quer calar: por que as Lojas Americanas continuam distribuindo normalmente as mesmas sacolas que ofereciam antes da publicação da lei municipal?

Para acesso à matéria do jornal Super Notícias, cliqueaqui; e para a matéria do jornal Estado de Minas, cliqueaqui.

João Ubaldo Ribeiro é o ameno presente de ano novo (analisando a história de Chapeuzinho Vermelho sob a ótica do politicamente correto)

No dia 11 de dezembro de 2011, João Ubaldo Ribeiro começou sua crônica dominical d’O Estado de São Paulo meio irado, meio puto com as tentativas do Estado brasileiro de “se meter cada vez mais na vida privada dos cidadãos”.

Citou como exemplo a literatura, até por ser sua área de atuação.

Começou pela novidade mais recente: “As próprias histórias são alvo dos tutores, que já reescreveram as letras de canções folclóricas infantis, como Atirei o Pau no Gato e O Cravo e a Rosa. Não se atira mais o pau no gato, nem o cravo sai ferido ou a rosa despedaçada.”.

E terminou, ele próprio, pesquisando a história da Chapeuzinho Vermelho, tentando encontrar detalhes que parecem inadequados, pelo menos na ótica do moderno ideário do politicamente correto.

Para disparar sua verve irônica:

Em primeiro lugar, tão à vista que passa despercebida a quase todos, vem a cor do chapéu. Por que vermelho? Durante a Guerra Fria, era uma óbvia tentativa de instilar subliminarmente, no inconsciente da juventude, o apego a um dos símbolos do comunismo, a cor vermelha de sua praça, sua bandeira e seu Exército. Passada essa era, o vermelho é atualmente a cor do PT. Não fica bem para o partido uma menina como Chapeuzinho, hoje desmascarada como uma pequeno-burguesinha preconceituosa e reacionária, usar um chapéu com a cor dele. Nesse caso, que outra cor, amarelo? Não, também fica chato. Além de ser uma das cores do Brasil, o amarelo pode ofender as minorias de raça amarela. O mesmo se diz do preto, acrescida a circunstância de que, neste caso, os mais radicais poderiam exigir que fosse Chapeuzinho Afro-brasileiro. E por aí marcha uma discussão infindável, terminando-se afinal por abolir a cor e deixar somente Chapeuzinho.

Também grave, embora da mesma forma poucos reparem, é o presente que Chapeuzinho leva para a vovó. Doces? A esta altura da evolução da medicina, levar doces para uma senhora já velhinha? Doces nessa idade deveriam ser evitados. Eles engordam e a maior parte dos ingredientes das gulodices é nociva para os idosos. Para não falar que o consumo de açúcar pode deflagrar um caso de diabete. Não, não, não se pode permitir que o exemplo de Chapeuzinho transforme gerações de jovens em envenenadores de vovozinhas.

O caçador é outro exemplo gritante de incorreção. A caça e o porte de armas no Brasil são proibidos e, portanto, esse pseudo-herói um criminoso. Numa clamorosa falta de consciência ecológica, esse fora da lei mata um lobo. O lobo é uma espécie ameaçada em toda parte e tem seu lugar na Natureza.

Para acesso ao inteiro teor, CliqueAqui.

Luís Fernando Veríssimo recria um conquistador traído e suas aparências: “o homem é julgado por quem o substitui”

Luís Fernando Veríssimo foi o personagem de longa entrevista da revista Playboy (dezembro de 2011), onde disse que 80% dos textos atribuídos a ele, que circulam na internet, são falsos.

Contou até que, ao ser elogiado por um texto falsificado, foi maltratado pelo interlocutor depois de dizer que não era o real autor.

Arnaldo Jabor, que talvez dispute com ele o título de Mais Falsificado Na Internet, também já contou ter passado por reação idêntica do público.

Para tentar diminuir para 79% o índice de falsificação de Veríssimo, sugiro a leitura de sua crônica O Pires, publicada no Estadão, de 04/12/11.

Brinca com a vaidade humana ao contar a história do conquistador barato que ficou ofendido ao ser trocado por um homem comum: “um homem é julgado por quem o substitui, argumentou Paulo”. Assim filosofou o personagem narcisista.

A reação do conquistador Paulo merece uma leitura completa; para minha surpresa não consegui localizar o artigo no site do Estadão, mas encontrei um site que copiou seu inteiro teor.

Como conferi e verifiquei que o jornalista Heraldo Moreira, autor do blog, usou o copiar-colar corretamente, o acesso que pode ser feito clicandoaqui.

Joaquim sai de moda (a escolha dos nomes de bebês depende de época e modismo)

Dia desses passou por mim, dentro de um supermercado belo-horizontino, um menino lá pelo seu primeiro ano de vida, tentando aprender a andar, dando umas corridinhas meio descontroladas, desajeitadas, experimentando a alegria dos primeiros passos.

Atrás dele corria a mãe – ou quem fazia o papel dela –, preocupada; falava, gritava, gesticulava:

— Cuidado, devagar. Espere, Joaquim!

A cena não é, obviamente, inusitada, mas não me lembro de ter observado outro caso recente de criança com tal prenome.

Joaquim é um nome que só associamos aos portugueses ou aos velhos brasileiros. Caiu de moda, ficou feio – ou ganhou a fama de feio.

Não deveria ser assim; segundo a Wikipedia, este era o nome do avô de Jesus Cristo, mas a verdade é que nomes de pessoas são dependentes da moda, são modismos.

E, provavelmente, Joaquim só retornou aos registros de nascimento por causa da apresentadora Angélica, que o escolheu para o seu primeiro filho.

Há umas três décadas uma colega de trabalho batizou um filho com o nome de Bruno e confessou que não estava sendo original, que era um nome da moda, um nome em ascensão naquele momento.

A geração jovem está cheia, além dos Brunos, dos Gustavos, Tiagos, Andrés, Lucas, Daniéis.

A Bíblia ainda é a grande fonte de nomes de bebês, por seus santos e profetas; curiosamente, poucos pais têm coragem de usar o nome Jesus.

No máximo Jésus, com o acento bem pronunciado para não parecer alguma heresia.

Já Maria é comum até demais, embora isoladamente também tenha ficado fora de moda. A moda que persiste – embora também em declínio – é o composto com outro nome.

Maria da Conceição, Maria Raimunda, Maria das Dores e Maria do Amparo saíram da moda, ficaram feios; agora as combinações que fazem sucesso são Maria Eduarda, Maria Clara, Maria Luiza e Maria Cecília.

Nas minhas pesquisas familiares, descobri que o prenome Isabel tinha alta frequência em todas as gerações de meus antepassados – e certamente nas gerações equivalentes de todos os brasileiros, pelo menos, nos dois ou três séculos que eu consegui alcançar.

Mas, curiosamente, esta exata grafia está saindo da moda: foi substituída pelas pequenas variações, como Isabela e Isabelle.

As Isabelas são geralmente tratadas apenas por “Bela”, o que, ademais, ajuda a massagear o ego feminino.

Fabiana Murer voando sobre o sarrafo (uma foto que merece se espalhar na internet)

Fabiana Murer, de 30 anos, é candidata a Atleta do Ano 2011. No Campeonato Mundial de Atletismo de 2011, realizado em Daegu, na Coreia do Sul, ganhou a medalha de ouro no salto com vara, a primeira do Brasil em Campeonatos Mundiais da IAAF (Associação Internacional de Federações de Atletismo). Ilustro meu blog com esta belíssima imagem de um de seus saltos (terá sido o salto campeão?). O fotógrafo também merece uma medalha, juntamente com o seu equipamento.

Pedro Nava analisa, belamente, a incoerência no uso de palavras obscenas

“Palavras obscenas”, “nomes feios”, são conceitos temporais; ofendem as pessoas de uma época, mas podem ser ouvidos com naturalidade em outra.

Algumas palavras que já foram classificadas como obscenas mudaram de sentido ou geraram, por derivação, novos vocábulos que perderam o vínculo com a origem e saem de todas as bocas sem preconceitos.

E também geram incoerências, como magistralmente observou o escritor mineiro Pedro Nava (1903-1984), considerado o pai da memorialística, que abordou a questão no segundo dos seis livros que se tornaram símbolo do próprio gênero literário.

O livro é Balão Cativo, o segundo da série, e se concentra na sua infância e adolescência; a questão em análise foi comentada na página 330 da edição datada de 2000, da Ateliê Editorial (ele terminou de escrever o original em 1973).

Retiro o seguinte trecho da obra:

Insuportáveis e grotescas são as incoerências atuais. Por exemplo: por quê? censurar os filmes e proibir ou permitir entrada nos cinemas até 12 anos, até 18 ou não sei que mais se os meninos e meninas de menos de 12 veem, nos seus cursos primários, slides de educação sexual onde se apreciam os genitais adultos, sua correlação no coito e as posições adequadas para o exercício deste. E quando saem do normal e verberam o anormal é para apresentar variações que funcionam como a antevisão de possibilidades. E que possibilidades! Por quê? se falamos a mesma língua, podemos dizer cu diante de senhoras portuguesas mas somos obrigados a traduzi-lo mal mal por bunda (e assim mesmo olhe lá!) diante de damas brasileiras. A propósito do cu: por quê? é proibido pronunciar o nome dessa parte e arquiautorizado falar ou até gritar: recuar, acuar, cuada, culatra e culatrona. Por quê? dizer francamente cabelo, que é pelo da cabeça, com reservas axelho que é o dito do sovaco e de modo algum pentelho, que é sempre a mesmíssima função capilar, só que nascida no pente. Por que é? já que tocamos em pentelho, que um escritor querendo ser protocolar não pode, mas não pode mesmo, escrever as oito letras da palavra e qualquer escultor pode esculpi-los sem ofender a moralidade, estilizando-os em chama de fogueira ou abrindo-os ao meio como Miguel Ângelo, no David e no Cristo Ressurrecto (Cristo, sim senhores! o de Santa Maria Sopra Minerva, em Roma). Ou pintor, pintá-los com todos os seus fios e de fio a pavio. E por que razão eu posso, sem ofuscar ninguém, falar e escrever pente de tartaruga, boceta de rapé, grelo de chuchu e passo a ser um canalha, um inacadêmico, um pornógrafo só com o suprimir a tartaruga, o rapé, o chuchu.

Além de discutir a contraditória obscenidade de palavras, o genial Pedro Nava, duas páginas antes, analisa o sentido obsceno oculto (psicanálise pura!) que é sugerido pelos elementos menores, as letras.

Transcrevo o pequeno e interessante trecho:

E as letras? as indecentes letras! o descomposto A de pernas abertas; o erecto I; o fingido Y se encolhendo como quem não quer; o V vulvar; o O ultra-anal. E a indignidade dos ditongos?, das semivogais? se apanhando ora pela frente, ora por trás – more bestiarum… E no fundo todos se regalam.

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